(re) Reflectindo...



[Dysfunctional Family by Yinka Shonibare]

[...]

Mas, como tambem se diz logo no inicio do documentario, "tudo comeca na familia"... De facto, nunca me esqueco desta frase (ordem?) que me foi dirigida por alguem da minha familia mais proxima: "tens que deixar os outros existir!" (... nao que eu alguma vez tivesse tido a intencao, a pretensao ou, menos ainda, a capacidade de impedir "os outros de existir"... so, what that means in practice is: "tens que deixar de existir para que eu e a(o)s outra(o)s possamos existir!"...).

E eu cresci a ouvir no seio da minha familia tanto quanto ouvi strong statements sobre "direitos adquiridos" (e, ja' agora e a titulo de curiosidade, a ser cognominada por um amigo da familia - por sinal um arquitecto portugues de quem incluo um postal aqui e que, by the way, foi quem me ofereceu o meu primeiro disco dos Pink Floyd - desde os meus 15/16 anos como "a intelectual da familia", cognome tambem usado frequentemente pela minha mae...- o que, amarga ironia, se viria a revelar uma afiada espada de dois gumes ao longo da minha vida!...) este dito, aparentemente baseado num proverbio baKongo: "a orelha nunca pode crescer mais do que a cabeca"!

Trouble is... talvez 'a excepcao destes, toda(o)s nascemos com a (e pensamos pela) nossa propria cabeca!

[Scramble for Afrika, by Yinka Shonibare]

Em suma: alguem ja' tentou reflectir um pouco mais profundamente sobre de onde veem os famosos e famigerados "complexos de inferioridade" (tambem designados por outros, "complexos de colonizado") dos negros e, muito particularmente, das negras?... Ou das causas estruturais do aparentemente "cronico sub-desenvolvimento" de Africa?!... I wonder...


[Extracto daqui]

Muanamosi Matumona (R.I.P.)



O Padre Muanamosi Matumona, deixou a terra dos vivos. Muana Damba, nasceu em 1965, para além de sacerdote, era jornalista, escritor, professor de Filosofia Africana e de Sociologia da Universidade Agostinho Neto , no Seminário Maior do Uíge e no ISCD do Uíge.

A sua morte acontece poucas semanas depois de ser nomeado Director da Emissora da Igreja Católica, a Rádio Ecclésia. Frequentou em Lisboa, no Porto e em Roma, os cursos de Teologia, Comunicação Social, Filosofia e Sociologia. Foi ordenado sacerdote em 1995.

Em 1982, com 17 anos de idade já era jornalista. Trabalhava para o Jornal Desportivo Militar, distinguiu-se nas repotagens e entrevistas que acordava aos jogadores de futebol, regressados angolanos do então Zaire, hoje R.D do Congo, como Seke Sarmento, Maluka, Vicy, etc...Trabalhou para agência noticiosa de Angola, Angop e colaborou até à sua morte para o jornal de Angola.

É da sua autoria as obras como: Ensaio de uma Epistemologia e Pedagogia da Filosofia africana, editada em 2004; Cristianismo e mutações sociais em África; Elementos para Teologia da reconstrução africana, publuadas em 2005; Contributo lusófono num mundo em mutação, 2008; Os médias ne era da globalização; A Sociologia do Jornalismo angolano, 2009.


[Obituario daqui]


Post Relacionado @ daKappo

No meu Dia Internacional da Mulher

Epifania


(À sombra de Vultures e Things Fall Apart de Chinua Achebe
'The Grandfather of African Literature')





Prólogo

Rompeu-se o véu
entre corpo e alma
- sim, o braço conseguiu
mas o corpo
esse, jaz na lama
- sim, a alma venceu
mas o olho
esse, não gostou do que viu


['Com Alma']




I.

Vergo o corpo
apedrejado
sob o sol
escaldante
estendo a mão
vacante
entre o torpor da dor
e o desespero da despedida
e logo a recolho
mordida
pelo misógino cão negro
tinhoso
complexado
psicopata
dominante
da matilha
ladrante
e esquartejada á catanada
pela assassina
pornógrafa ninfa branca
orgíaca
lésbica
ninfomaníaca
esquizofrénica
tirana
neo-nazi
reinante
da multidão
delirante

Com sua raiva selvagem
perseguindo lúgubres orgasmos
sobre o meu corpo estraçalhado
para me amputar o génio
e a identidade
me extirpar a serenidade
e o sorriso
e engolir para sempre
minha alma
pura e frágil


Mas não cometo
um suicídio
em grande estilo
pelo atrevimento
prossigo de pé
face à campanha
o calvário
da minha caravana
itinerante

Dou a outra face
estendo a outra mão
vacilante
tento soltar a voz
murmurante
mas logo emudeço
sob o grito
lancinante
de ira
de uma matriarca negra
autofágica

sorry excuses for women

(Mulheres?)

Invento o silêncio.




II.

Abro os olhos
às Mães de Maio
desalmadas
expiando gravidezes
desamadas
às Filhas da Dipanda
Anas com patentes
de Major
aprisionadas
carpindo orfandades
e viuvezes
denegadas
curtindo violações
desonradas
urdindo elocubrações
desbragadas
sobrevivendo explosões
mutiladas
engolindo agressões
abusadas
fazendo reuniões
usadas
desfazendo uniões
humilhadas
expressando visões
enxovalhadas
descrendo paixões
objectificadas
coleccionando desilusões
enciumadas
quebrando tradições
enfeitiçadas
colhendo difamações
estigmatizadas
cuspindo maldições
enlameadas
defendendo reputações
desprezadas
perdendo razões
emperucadas
evitando rejeições
desfrizadas
forjando crispações
frustradas
desaprendendo canções
desafinadas
disfarçando inaptidões
kabungadas
acumulando formações
desempregadas
truncando vocações
subestimadas
contendo pulsões
ressabiadas
cultivando solidões
desfeiteadas
sofrendo depressões
silenciadas
cumprindo obrigações
odiadas
contando tostões
desesperadas
perdendo habitações
desalojadas
suprimindo emoções
complexadas
terçando orações
excomungadas
(Fêmeas?)

Ouço o silêncio.




III.

Seco as lágrimas
estanco o sangue
parto o gesso
quebro as grilhetas
tiro a vergonha
arranco a máskara
da mátria krioula
erguida sobre bordéis
em mucekes
e kraals
cercados de aduelas
de pipas de vinho baptizado
e sacos de fuba
e peixe podre
Joana Maluka
novo-enriquecida
de barris de petróleo
encrustados
de diamantes de sangue
Rosa do Kinaxixi
exaurida
amaldiçoando filhos
bastardos
e vociferando-lhes
elogios
fúnebres
mean-spirited
pobres e insignificantes
criaturas rejeitadas
while their afrikan
assimilated
idiot men-boys oversee
in their obscene
palaces of gold
brand new flashy
sports cars and SUVs
white girls
and misguided
violent masculinity
the raping soiling and butchery
of their own
women
mothers
and daughters

E porrada nelas
se refilarem!






Conto nos dedos
da mão restante
um a um
cada século
of the half a millennium
of alien rape and murder

que as verga aos algozes
lhes despe o corpo
de alma
lhes rouba a dança
de espírito
lhes mbaka o útero
de Amor
lhes destitui o cérebro
de seiva
lhes esvazia a mente
de memória
lhes vaga a face
de riso
lhes amarga a boca
de fel
e lhes veste a ignorância
de arrogância

Renovo a vontade grande
de ter respostas
da concha de mãos
com água
aos lipele
e às bocas de pedra
dos deuses
(Revolta?)

Rompo o silêncio.




IV.

Mbuta Muntu
chega lento
num rumor de águas
no kacimbo
de sua longa ausência
de séculos
no Kulumbimbi
convoca os Nkisi
sobre a Pedra do Feitiço
desmantela a lusotropical
Comissão das Lágrimas
dispersa o Bando
lembra-lhes de
Valores e Princípios

Chama Tia Ana Velha Mulata
junta a Nkanda
mães e filhas
mães solteiras
surdas-mudas
mulheres feitas
de apenas
ao domingo
doentes
longe da cidade
enterra
the white man's knife
afiada
que as cortou àparte
inebriadas
à mingua de amizades
tristes

Limpa-lhes chagas
sara-lhes feridas
desfia-lhes terços
desfaz-lhes cruzes
arranca-lhes espinhos
tira-lhes perucas
desmancha-lhes tissagens
friza-lhes desfrizos
faz-lhes tranças
lava-lhes a boca com mel
dá-lhes banho de chuva
estende-lhes o rio
sobre corpos e almas
dá-lhes a trincar da kola
dá-lhes a comer do gengibre
dá-lhes a beber da sanga




Restitui-lhes a identidade
restaura-lhes a honra
reconstitui-lhes o plasma
ata-lhes os laços
reata-lhes o afecto
recobra-lhes o sorriso
recupera-lhes a fala
reencontra-lhes as pérolas
devolve-lhes o sonho
reaviva-lhes a auto-estima
renova-lhes a esperança
cobre-as de panos do Kongo
senta-as ao colo
à sombra
da Árvore Sagrada

Fecha-lhes os olhos
e deixa-lhes saber da zanga
of vultures and ogres
da precaridade do amor
and of the perpetuity of evil
(Epifania?)

Reinvento o silêncio.





Epílogo

This is coast country, humid and God-fearing, where female recklessness runs too deep for short shorts or thongs or cameras.

Sometimes the cut is so deep no woe-is-me tale is enough. Then the only thing that does the trick, that explains the craziness heaping up, holding down, and making women hate one another and ruin their children is an outside evil.


[Toni Morrison in Love]





© K. (2011)


Muana Damba [Actualizado]*

*[Post 'ecoado' aqui]


Se ‘Kongo Blues’ ainda carecia de um significado mais substantivo para mim, (re)encontrei-o hoje, num certo momento marcado por uma daquelas emocoes para as quais a intraduzivel palavra “saudade” nao parece ser suficientemente satisfatoria, prestando-se-lhe(s) melhor a palavra “blues”... .


Ultrapassado aquele momento, por caminhos invios, fui parar a este site que me transportou, tal como o tio Pepe no seu carro, todos os anos durante um certo periodo, a Damba: esse lugar que guarda o melhor de mim – nao nasci la' (na verdade nunca conheci a terra onde nasci acidentalmente, a Gabela), mas nao me consigo rever tao completamente noutra descricao/identificacao que nao a de “Muana Damba”...



Foi a primeira vez que a ela “regressei” depois do que parece ser uma eternidade (na verdade, essa eternidade comeca no inicio de 1980 quando, nos primeiros meses da gravidez do meu filho, fui 'a Damba visitar a minha avo - a minha mae e a minha tia encontravam-se entao a viver, respectivamente, em Portugal e Franca -, comunicar-lhe do meu estado e pedir-lhe os seus conselhos e aprovacao)...

[Foto daqui]



Descrever, entao, a torrente de emocoes que vivi nas cerca de duas horas em que literalmente imergi nas suas paginas e’, igualmente, algo que ultrapassa as minhas capacidades, pelo que, mais uma vez, so’ uma palavra me assiste: “blues”... E nao uns blues quaisquer: exactamente Kongo Blues!


Claro que a imersao vai continuar nos proximos tempos, mas por agora deixo aqui alguns registos do que por la’ encontrei.

Comecando por este extracto deste texto de Jose' Neves Ferreira:

Viva o tempo que viver nunca me esquecerei das manhãs do frio Cacimbo quando o nevoeiro envolve, como um manto diáfano, as gentes que passam na rua, as casas, as árvores,parecendo que tudo está mergulhado num sonho; nem do sabor de uma moambada de ginguba,comida numa reunião de amigos, nem do feijão da Damba, que era apreciado em toda a parte, ou das mobílias da Damba (e também do Camatambo) que se podiam encontrar tanto em casas de Luanda como em longínquos postos administrativos; ou ainda do “Cristo da Damba”, esculpido por um artista que morava no Bairro da Missão, e se vendia a bom preço nas lojas de artesanato;como também das largas paisagens formadas por cadeias de morros e colinas que admirava nas viagens para a Lemboa ou das amplas planícies e chanas do itinerário que, por Chimancongo, se alcançavam as Fazendas, e das quais sentia emanar uma inefável sensação de liberdade, quando contempladas de cima do tejadilho da carrinha.


... que me fez ir buscar ao fundo da gaveta este poema, escrito ha' ja' alguns anos e que me parece inacabado (nao consigo encontrar a sua versao original, que me parece diferir algo desta - digamos, entao, que e' ainda um "projecto de poema"):




Damba

['A Memoria do meu Avó (nKaka), (Mbuta Muntu)Pedro José de Faria Túfua de Agua Rosada]


Início
que te torna Pedro:

som
pétreo Cedro
indeclinável
ao Tempo

distância
mudo Vento
intraduzível
à Memória

ausência
remota Glória
inconfessável
à Fala

vida
silente Bala
indizível
à Pele


Sangue que te inviabiliza a Safra:

Lavra
incansáveis corpo, alma
insaciável

Sanga
moída magoa ao rumor d´aguas
no domingo


Transmutação
que te torna quase o Norte:

Terra
indefiníveis goiabas, cambumbú
inconfundível
Encanto
maturação do safú no cacimbo


Silêncio
que te torna Pressentimento:

Incenso
inextricáveis cruzes, terço
imperdoável
Cálice

Projecto vencedor da morte
na Igreja

Damba

(…)

['Tia Ana Velha Mulata']





Mas, continuando com as memorias de Neves Ferreira:

Mas do que tenho ainda mais saudades é das gentes da terra, com quem convivi. Desde os meus companheiros de escola, com as nossas fugidas para mergulhos na represa da Granja da Administração – o nosso mundo mágico de encantar qualquer miúdo --, até as gentes que encontrava nos caminhos e picadas onde andei e deambulei. Recordo o nosso Alfaiate Paulo, o Soba Manuel Kituma, o João Ajudante de carrinha, o Técnico do Combate à Tripanossomíase Manuel Tungo, o Enfermeiro Francisco Rómulo o Funcionário Administrativo Laurentino, o Manuel Bengue, o Pedro Faria, suas irmãs (meus colegas de escola) e os seus Pais, bem como tantos e tantos outros. Outrossim, dos Padres e Madres da Missão Católica da Damba, com a sua acção de entrega total ao serviço de toda a gente – a verdadeira mensagem de Jesus, o Cristo – e nomeadamente o paradigmático Padre Rafael a quem tinha uma grande amizade…



De onde destaco especialmente esta passagem:


“Pedro Faria, suas irmãs ( meus colegas de escola ) e os seus Pais.»


O Pedro Faria e’ o meu tio-padrinho Pepe (a que me refiro no inicio e que ainda ha’ dias aqui recordei) e as suas irmas sao a minha mae e a minha falecida tia, sendo os seus pais, obviamente, os meus avos maternos (fotos acima).
Exceptuando o tio Pepe (a quem dedico uma foto-reportagem especial no fim deste post), todos eles podem ser vistos tambem na foto abaixo (que ja’ ha’ algum tempo aqui postei), onde tambem se pode ver o Dr. Morais Martins, cuja obra sobre o seu trabalho na Damba e’ amplamente reproduzida no site e da qual destaco este extracto.



Depois… a evocacao dos cheiros e ambiencias (... cacimbo, nevoeiro, terra molhada, as lavras, a ginguba acabada de arrancar, o colher e o descascar do feijao, fumo de forno a madeira, moamba de ginguba e de galo... enfim, a magia encantatoria... os sabores, odores & sonho da Damba... ) e uma serie de nomes familiares, como Kiame, Rescova, Romulo, Mbuta, Benge, Vemba…



E o Bispo Dom Afonso Nteka. Melhor do que eu alguma vez aqui o poderia fazer, a sua autobiografia, publicada em livro antes do seu tragico falecimento num acidente aereo, diz o quanto o ligava a minha familia: nele ele incluiu uma foto dos meus avos maternos, a quem tratava por pai e mae, tendo a eles dedicado algumas palavras, rendendo-lhes assim a sua homenagem pessoal.



Mas, infelizmente, tendo percorrido ansiosamente as galerias de fotos e videos da Damba la’ expostos, em nenhuma delas consegui ver (ou reconhecer) a nossa casa… Ficava em frente a Igreja da Missao Catolica – desta sim encontram-se algumas imagens…



Enfim, depois de todas as emocoes que hoje vivi, a par do "blues", (re)descobri tambem o verdadeiro significado da palavra "afectos"...





Ode ao Ti Pepe'











pelo meu apadrinhamento
pela minha xara'




pelo oh soleil, soleil...
quando o sol nascia
a caminho da Damba
pelo tombe la neige
e toda a musica que sei e de que gosto
especialmente pelos Francos e Rochereauxs
pelo primeiro soukous que dancei



pelo primeiro malavo que bebi
e em que sonhei acordada
por todos os funges (especialmente os de carne seca e os de bagre fumado com moamba de ginguba) e kizakas e os (imprescindiveis!) feijoes de oleo de palma
com farinha e banana



pela joie de vivre

por tudo quanto entendo ser o mais puro, sublime, profundo, genuino afecto.





['Santa']


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